Call of Duty Russo: Kremlin abre os cofres para tentar criar rival patriótico

O governo russo prometeu até 10 bilhões de rublos (US$ 128–130 milhões) para desenvolvedores dispostos a criar um shooter militar patriótico que rivaliza com Call of Duty, incluindo taxa corporativa reduzida a 5% e isenção de VAT, após deputado solicitar banimento da franquia por “russofobia”.

O Ministério do Desenvolvimento Digital da Rússia confirmou que estúdios locais que se candidatarem a produzir um shooter AAA nos moldes de Call of Duty — mas com narrativa pró-Kremlin — terão acesso a incentivos fiscais robustos e possível financiamento direto através do Instituto de Desenvolvimento da Internet (IRI).

A iniciativa surge como resposta direta a uma solicitação de Mikhail Delyagin, vice-chefe do Comitê de Política Econômica da Duma Estatal, que em dezembro de 2025 pediu à Roskomnadzor (agência reguladora de mídia) que investigasse a série Call of Duty: Modern Warfare e a banisse do país caso fosse considerada portadora de “propaganda russofóbica”.

Delyagin, que disse ter recebido reclamações de cidadãos russos, argumentou que os jogos da franquia colocam jogadores sistematicamente no papel de combatentes que atiram em soldados russos. Ele enviou carta ao Ministério do Desenvolvimento Digital solicitando a criação de um shooter de orçamento comparável onde o jogador assume o papel de militares russos ou agentes de inteligência, e os antagonistas são “representantes de países hostis (Ucrânia, Grã-Bretanha, Estados Unidos, França e outros)”.

Orçamento de 10 Bilhões de rublos e estrutura de apoio

A estimativa de 10 bilhões de rublos para desenvolver um equivalente russo de Call of Duty foi divulgada pelo jornal estatal Gazeta.ru, que também confirmou a resposta do Ministério do Desenvolvimento Digital. Esse valor representa aproximadamente US$ 128–130 milhões, o que tornaria o projeto um dos mais caros da história dos games russos — para contexto, participantes de um painel na conferência RED EXPO em novembro de 2024 estimaram que jogos AAA russos custam entre 1,5 e 3 bilhões de rublos. Delyagin reconheceu que orçamentos dessa magnitude estão “provavelmente fora do alcance de desenvolvedores domésticos sem suporte adicional do governo russo”

O Ministério declarou que “se receberem uma aplicação de financiamento para o desenvolvimento de um jogo sobre o tópico especificado na carta, ela será revisada de acordo com o procedimento estabelecido e dentro dos mecanismos competitivos existentes”. Uma das rotas mencionadas é o Instituto de Desenvolvimento da Internet (IRI), organização estatal que em 2024 anunciou planos de alocar 2 bilhões de rublos para projetos de jogos em 2025, cobrindo de 30% a 50% dos custos de títulos médios e grandes. O IRI também planeja começar a apoiar projetos de longo prazo com até cinco anos de implementação.

Incentivos Fiscais: Taxa de 5% e Isenção de VAT

Além do financiamento direto, o governo russo oferecerá benefícios tributários substanciais aos desenvolvedores que assumirem o projeto. Os incentivos incluem:

  • Taxa de imposto corporativo reduzida para até 5% (comparada à taxa padrão russa)

  • Prêmios de seguro reduzidos para as empresas envolvidas

  • Isenções parciais de VAT (imposto sobre valor agregado) em certos casos

Esses benefícios são os mesmos tipos de vantagens que, segundo o Ministério, empresas ocidentais como Activision, Ubisoft e Electronic Arts recebem de seus respectivos governos. A estratégia de Moscou replica modelos de subsídio estatal a indústrias culturais, mas com objetivos declaradamente propagandísticos: criar uma alternativa que narre a perspectiva militar russa contra “nações hostis”.

Desafios e Histórico de Tentativas Anteriores

A Rússia já fez promessas semelhantes antes. Em 2022, após o êxodo de empresas de tecnologia ocidentais devido à invasão em larga escala da Ucrânia, o país considerou desenvolver uma “engine nacional de jogos”. O conceito foi abandonado devido aos custos proibitivos, embora um investidor privado tenha supostamente intervindo para manter a iniciativa viva. Até o momento, nenhum desenvolvedor russo se apresentou publicamente para reivindicar estar trabalhando em um equivalente de Call of Duty.

A questão permanece aberta: um estúdio russo conseguirá produzir um shooter AAA competitivo globalmente — ou mesmo atrativo para o público doméstico — sob restrições narrativas tão rígidas e com a exigência de retratar “nações hostis” como antagonistas? A resposta virá somente se alguma equipe decidir submeter proposta formal ao IRI ou ao Ministério, processo que, segundo o governo, seguirá “mecanismos competitivos existentes”.

Rolar para cima